
Em seis de junho de 1996 Denise Coelho assistia uma pequena performance de um grupo de músicos num barzinho em São Tomé das Letras, sul de Minas Gerais. No grupo estavam Jefferson Sooma e Leandro Valquer, cuja parceria tem criado canções belas e contemplativas. Jefferson tocava seu violão, cantava e tocava sua flauta de bambu. Leandro tocava bongô e cantava. Outras pessoas vinham e se juntavam à roda animada. Extremamente tímida, a estudante de canto lírico Denise observava e pensava se devia ou não cantar com eles. Três meses depois os três gravavam uma pequena fita cassete com as canções "Como Cristo consentiu?" e "Ser...tão" para participar de um festival escolar em São Bernardo do Campo, SP. "Como Cristo consentiu?" ficou em primeiro lugar no festival que tinha no júri os músicos Zé Terra e Célio Collela. Desde então o grupo Carranca, que tirou este nome de uma página do dicionário aberta ao acaso, vem se apresentando em diversos lugares do planeta, tendo sempre em mente o rompimento das fronteiras artísticas (se é que elas existem).
Carranca virou Karran-K que virou K.RAM.K que virou KAH-HUM-KAH. O primeiro foi um erro bem vindo cometido por quem fez seu primeiro cartaz oficial para uma apresentação na extinta Cervejaria da Avenida Dom Pedro II em Santo André, SP. O tal erro motivou a pensar outras grafias. As duas letras K de K.RAM.K significam dois mil, pois o grupo nasceu às vésperas da mudança de milênio. A palavra RAM fica no meio dos Ks como um elo entre os milênios: a tradição hindu e a memória cibernética. A última grafia, KAH-HUM-KAH, fala sobre as novas aspirações do grupo: tem o mesmo significado anterior adicionado da palavra inglesa HUM que quer dizer som contínuo, ou seja, música sempre, poesia sempre, arte sempre e KAH é um tipo de saudação em Tupi-Guarani "dá licença". Música, poesia, artes plásticas e dança. Tudo misturado. E ainda sons, cores, cheiros, paladares, toques e energia. Tudo é Misturalismo: a dança tem cheiro de som e temperatura de fogo, a pele negra dos tambores exala macios perfumes de gosto doce, cordas de metal se fundem às "cordas" vocais e acorda as libélulas que incorporam o sopro da flauta e dos pulmões em plena vida e atividade. Tudo é Sinestesia.
Denise Coelho, Jefferson Sooma, Rogério Amorim, Ívan Taraskevicius, Raifah Monteiro, Rangel Arthur e Rosana Ribeiro são as forças humanas do KAH-HUM-KAH de hoje. Vozes, violão, percussão, teatro, baixo elétrico, mais percussão, outro violão, flauta, clarinete, flauta transversal, ocarina, percussão corporal, mais teatro, dança. Consciência ambiental, interatividade, arte. Intercâmbio cultural mundial, desenvolvimento de projetos sócio-culturais, sensibilização artística, crença na arte como agente transformador social, afirmação da cidadania, força de trabalho, artistas convidados, projeto Um Dia Sinestésico, Ambiente Inteiro, oficinas, ativismo, promoção e estímulo de ações, experiência, potencial, objetivo, intervenção, realização, colaboração, inovadora, criação.
"O KAH-HUM-KAH mobiliza uma rede de solidariedade" - Silvio Tendler - Cineasta